Por Gabriel Xavier Supervisor de Gestão e Arquitetura de Sistemas | Especialista em Governança de TI e Analytics
No mercado de tecnologia, existe uma tendência perigosa de adotar soluções baseadas puramente em “hype” sem uma análise de dados regionalizada. Como alguém que dedica a carreira a traduzir métricas complexas em eficiência operacional, vejo o debate sobre DNS ser frequentemente reduzido a uma escolha emocional: “O Google e a Cloudflare são gigantes, logo, são mais rápidos”.
A realidade técnica, no entanto, é agnóstica a marcas. A latência de navegação não é uma métrica estática; ela é o resultado direto da geografia, do número de saltos (hops) entre redes e da eficiência do peering (acordos de troca de tráfego) do seu provedor. Mudar seu DNS para um serviço “famoso” pode, paradoxalmente, inserir um atraso de 200ms na experiência do seu usuário final.
Neste artigo, vamos além do glossário básico. Vamos auditar como a infraestrutura dos ISPs brasileiros interage com os resolvedores globais e por que a distância física ainda é o maior gargalo da internet moderna.
DNS Público ou ISP: o impacto real na latência de navegação
A verdade que ninguém te conta: aquele DNS “famoso” que você mudou para ganhar velocidade pode estar sendo mais lento que o do seu provedor. A realidade da latência DNS não é sobre qual serviço é globalmente “melhor”, mas sobre onde você está geograficamente, quantos saltos (hops) seus pacotes precisam pular, e como a rede do seu ISP interage com a estrutura de servidores públicos.
Neste artigo, vamos além do discurso de marketing e entrar na zona de impacto real: não vamos explicar o que é DNS, mas sim desvendar como servidores públicos se comportam sob pressão de latência em cenários específicos e por que a distância geográfica destrói a promessa de velocidade.
O mito da velocidade flobal: por que Cloudflare não é sempre mais rápido
Se você seguiu o hype dos últimos anos, provavelmente alterou seu DNS padrão para 1.1.1.1 (Cloudflare) ou 8.8.8.8 (Google) com base em uma promessa simples: “Somos mais rápidos que qualquer ISP”. Dados de marketing ajudam. Cloudflare publicita latências médias de 14,8 ms globalmente. Google faz o mesmo. Mas há um detalhe crucial que os relatórios omitem: essas médias são calculadas a partir de 200+ locais distribuídos, o que significa que seu local específico pode estar bem acima ou abaixo dessa média.
A realidade empírica é mais matizada. Em testes conduzidos por pesquisadores independentes (Vaibhav Bajpai, 2021), constatou-se que alguns resolvedores públicos alcançam latências menores que ISPs locais—mas nem sempre. O fator determinante? A proximidade física do servidor resolver em relação ao seu ponto de acesso à internet.
Latência Média Reportada (Global)
14,8 ms
Cloudflare 1.1.1.1 (Marketing)
Latência Média em Testes Reais
18-45 ms
Variação por região geográfica (Brasil, ISP-dependent)
Cenário 1: Você está em São Paulo, mas o Resolver (servidor DNS) público está em Miami
Aqui está o problema concreto que quase ninguém discute. Um usuário final em São Paulo (ponto de acesso: ISP local) tenta resolver google.com usando 1.1.1.1. O pacote DNS sai de São Paulo, atravessa o Atlântico, chega a um dos pontos de presença da Cloudflare em Miami, é processado, e retorna. Isso pode levar 25-35 ms só na latência de rede, sem contar o processamento.
Em comparação, se o ISP local (ex: Vivo, Oi, Tim no Brasil) mantiver um resolver DNS em seu datacentro regional, a latência pode ser de apenas 5-12 ms—porque os dados nunca deixam a rede local.
Cloudflare tem pontos de presença em São Paulo? Sim, desde 2019. Mas nem todo usuário é roteado para o mais próximo, especialmente se a BGP (Border Gateway Protocol) e as políticas de roteamento não estão otimizadas para sua região específica.
Otimizar o DNS é apenas o primeiro passo para reduzir a latência. Se a sua infraestrutura física não estiver alinhada, o ganho de milissegundos se perde no hardware. Confira nossa auditoria sobre o Mito do Cat7 e saiba qual cabo realmente entrega alta performance.
O Fator Hops: como a distância geográfica se traduz em latência
Latência é, em essência, uma questão de distância física multiplicada pela velocidade de propagação de dados em fibra óptica (aproximadamente 200.000 km/s, ou 2/3 da velocidade da luz). Mas não é linear. Cada “salto” (hop) na rede adiciona microsegundos de processamento, roteamento e possíveis congestionamentos.
Um resolver DNS no ISP local pode estar a 10-50 hops. Um resolver em Miami, a 12-18 hops, mas com latência agregada maior porque a distância geográfica compensa qualquer vantagem de hardware.

Insight Técnico: A diferença entre 8ms e 28ms pode parecer pequena (20ms), mas em uma navegação web típica, onde você faz entre 50-100 requisições DNS por sessão, esse overhead se acumula em segundos de atraso perceptível. O usuário “sente” o site como lento, não porque o servidor seja lento, mas porque a primeira camada de resolução falhou em velocidade.
Benchmark empírico: Cloudflare vs. Google vs. ISP em cenários reais
Vamos aos dados concretos. Compilamos métricas de múltiplas fontes (DNSPerf, Catchpoint, testes internos) para criar um quadro realista de como esses resolvedores se comportam em diferentes contextos.
| Resolver DNS | Latência Média (ms) | P95 Latência (ms) | Uptime Reportado | Melhor Para |
|---|---|---|---|---|
| Cloudflare 1.1.1.1 (Global Avg) | 14,8 | 22 | 99,99% | Privacidade + Velocidade geral |
| Google 8.8.8.8 (Global Avg) | 15-18 | 25 | 99,98% | Infra Google, cache otimizado |
| Vivo DNS (Brasil) | 5-8 | 12 | 99,9% | Usuários Vivo, latência mínima |
| Oi DNS (Brasil) | 6-10 | 15 | 99,85% | Usuários Oi, streaming |
| Quad9 (9.9.9.9) | 16-20 | 28 | 99,98% | Segurança (bloqueio malware) |
| OpenDNS (208.67.222.222) | 17-22 | 30 | 99,97% | Famílias (controle parental) |
Fonte de Dados: Compilação de DNSPerf (últimos 30 dias), testes Catchpoint (2024), estudos acadêmicos (Bajpai et al., 2021) e métricas de roteamento de ISP brasileiro.
Por que o ISP local vence neste benchmark?
A resposta é simples, mas poderosa: proximidade + cache local + integração de rede. Um ISP que mantém resolvedores DNS em seus datacenters oferece latência mínima porque:
- Sem saltos internacionais: O pacote DNS não sai da rede do ISP. É roteado localmente, economizando milissegundos.
- Cache aquecido: ISPs locais resolvem milhões de consultas diárias dos mesmos domínios (google.com, youtube.com, netflix.com). Esses estão em cache com TTL baixo, resultando em resposta quase instantânea.
- Integração com CDN: Provedores como Vivo, Oi e Tim têm acordos de peering com CDNs globais, o que significa que o resolver local “conhece” o melhor ponto de entrega de conteúdo para aquela região.
- Sem congestionamento internacional: Resolvedores públicos globais podem sofrer picos de congestionamento em liens internacionais, especialmente em horários de pico.
O atrito real: quando trocar de DNS não ajuda (e pode piorar)
Chegamos à seção de “verdade incômoda”. Existem cenários muito específicos onde mudar para um DNS público não oferece ganho, ou até degrada performance. Esses são os problemas de 4ª camada que ninguém aborda.
Cenário A: sua conexão já é rápida localmente
Se você usa um ISP que investe em infraestrutura DNS local (Vivo ou Tim no Brasil), a latência já está otimizada. Cambiar para Cloudflare ou Google adicionará latência, não a removerá. Você pode ganhar em privacidade (o ISP não registra suas consultas), mas perderá em velocidade pura.

Cenário B: você está em uma região com cobertura DNS débil
Aqui há reversão: Se você está em uma região rural ou distante de datacenters de ISP, um resolvedor público pode ser sua melhor opção. Exemplo: usuário no interior de Rondônia, distante do hub de rede mais próximo do seu ISP, pode ter latência ISP de 40-60ms. Nesse caso, usar Cloudflare Miami (28ms) ou Google Global (25ms) é a estratégia correta.
Caso Prático: Usuário Rural (Rondônia)
DNS ISP: 55ms (hub de rede em Brasília, muitos hops)
Cloudflare 1.1.1.1: 28ms (Miami + infrastructure global)
Resultado esperado: 27ms de ganho → Mudança para Cloudflare é justificada.
Conclusão: Nem todos os cenários são urbanos. A geografia importa.
Cenário C: o impacto de VPN e proxies na equação de latência
Aqui entra a 4ª camada de complexidade. Se você usa VPN, a escolha de DNS interage com a VPN de forma não-óbvia.
Problema: Se você conecta a uma VPN em Miami (por exemplo, ExpressVPN), seu tráfego sai de São Paulo → Miami → resolver público (também em Miami ou além). Você está adicionando latência de VPN + latência de resolver, quando poderia usar o resolver do ISP antes de entrar na VPN, com melhor latência agregada.
Solução técnica avançada: Muitos usuários técnicos não sabem que podem (em alguns casos) fazer split-DNS: usar o resolver ISP para consultas locais e um resolver VPN para consultas externas. Isso requer configuração manual no router ou cliente VPN.
Armadilha Comum: Mudar para Cloudflare enquanto usa VPN pode resultar em latência DNS 2-3x maior que o seu setup original. Não é culpa do Cloudflare; é culpa da composição de latências.
Distância geográfica e Hops: a matemática real da latência
Vamos desmontar a fórmula que ninguém ensina. A latência total de uma consulta DNS é composta por:
Fórmula de latência total DNS:
Latência Total = (Distância Física / Velocidade em Fibra) + (Latência de Hops) + (Latência de Processamento) + (Congestionamento)
Sendo:
- Distância Física: ~3ms por 1.000km em fibra ótica
- Latência de Hops: 0,5-2ms por hop (roteador intermediário)
- Latência de Processamento: 1-5ms (query parsing + resposta)
- Congestionamento: 0-100+ms (variável, hora de pico)
Exemplo prático: São Paulo → Cloudflare Miami vs. ISP Local
| Componente | ISP Local (São Paulo) | Cloudflare (Miami) |
|---|---|---|
| Distância (km) | ~50 km | ~8.700 km |
| Latência Física | ~0,75ms | ~13ms |
| Hops | 5-8 hops | 12-18 hops |
| Latência Hops | 3-6ms | 6-15ms |
| Processamento + Cache Hit | 2-3ms | 1-2ms (Cloudflare tem cache global) |
| Total Esperado | 6-12ms | 20-30ms |
A diferença é significativa: um fator de 2,5-5x a favor do ISP local. Nenhuma otimização de software elimina a física.
O paradoxo Cloudflare: por que ainda vale a pena para alguns
Apesar da latência maior para usuários urbanos de ISPs bem-estruturados, Cloudflare continua popular. Por quê?
- Privacidade: Cloudflare promete não vender dados, logs deletados a cada 24h. ISPs não fazem promessas similares.
- Segurança: Bloqueio de malware no resolver, proteção contra DNS hijacking.
- Consistência: Alguns usuários experimentam instabilidade com ISP local; Cloudflare é mais previsível.
- Múltiplos ISPs:**Usuários que mudaram de ISP (portabilidade) ganham com resolvedor que funciona em todos.
Então a escolha é: Velocidade pura (ISP) vs. Privacy + Segurança (Cloudflare). Não é um vencedor universal; é um trade-off.
Como você deve escolher: uma estrutura de decisão
Chega de teoria. Vamos a uma árvore de decisão prática que leva em conta todos os fatores que discutimos.
- Meça sua latência ISP atual: Use
nslookup -type=NS google.com 8.8.8.8e ferramentas como namebench. Se latência < 15ms, fique com ISP. - Teste em horário de pico: Latência muda drasticamente entre 14h e 22h. Teste ambos os horários.
- Verifique sua localização regional: Se você está em área urbana (SP, RJ, MG, RS), ISP geralmente vence. Se rural, Cloudflare vence.
- Avalie trade-offs não-técnicos: Privacidade importa para você? Segurança contra malware é crítica? Isso muda a equação.
- Use DNS adaptável (Advanced): Se técnico, configure seu router para ISP local + Cloudflare como fallback, alternando automaticamente.
Recomendação Consolidada:
Para usuário urbano Vivo/Oi/Tim: Mantenha DNS do ISP (ganho de 15-20ms). Se privacidade é crítica, use VPN combinada com DNS ISP.
Para usuário rural: Cloudflare ou Quad9 são melhores apostas (economia de 30-40ms comparado a ISP).
Para usuário técnico: Implemente split-DNS com fallback automático. Máxima velocidade + resiliência.
Implicações de performance: de milissegundos a experiência perceptível
Aqui está o pulo do gato: por que essa discussão de 10-20ms importa? Porque em uma navegação web típica, você faz múltiplas resoluções DNS.
Cascata de resolução em uma página web típica
Quando você abre uma página de notícias ou rede social, o navegador não faz uma única requisição. Ele resolve:
- Domínio principal (exemplo.com) → 1 DNS
- CDN de imagens (images.exemplo.com) → 1 DNS
- Rastreadores de analytics (google-analytics.com, etc.) → 1+ DNS
- Redes de publicidade (ads.google.com) → 1+ DNS
- Subdomínios de API → 1+ DNS
- Fontes web (fonts.googleapis.com) → 1 DNS
Total típico: 8-15 resoluções DNS por página.
| Cenário | 10 Resoluções @ ISP (8ms) | 10 Resoluções @ Cloudflare (28ms) | Diferença Perceptível |
|---|---|---|---|
| Tempo Total de DNS | 80ms | 280ms | 200ms (lento!) |
| Se Cache Hit em 60% das queries | 32ms | 112ms | 80ms |
| Impacto no Largest Contentful Paint (LCP) | +80-120ms | +280-400ms | Diferença perceptível (>200ms degrada UX) |
Conclusão: Aquela diferença de 20ms por resolução se transforma em 200-400ms de atraso agregado em uma navegação real. Isso é perceptível para o usuário final. O site “sente” mais lento.
DNS e SEO: como isso afeta seu ranking
Agora, o ângulo que interessa para proprietários de site: como latência DNS afeta SEO?
Google usa Core Web Vitals como sinal de ranking. Os três principais são:
- LCP (Largest Contentful Paint): Tempo até conteúdo principal aparecer.
- FID (First Input Delay): Responsividade a interações.
- CLS (Cumulative Layout Shift): Estabilidade visual.
Latência DNS afeta principalmente LCP. Se seus visitantes usam DNS lento (porque você está em servidor longe ou DNS padrão é ruim), a primeira requisição HTTP é atrasada. Isso degrada LCP, que degrada ranking.
Porém, há uma nuance importante: Google usa seu próprio crawler para testes, que tipicamente resolve DNS via Google Public DNS ou cache interno. O que importa para SEO não é necessariamente a velocidade DNS do usuário final, mas a velocidade do servidor que responde à requisição HTTP.
Dito isso, usuários reais com DNS lento experimentam pior performance, aumentam bounce rate, que afeta rankings indiretamente (sinais de comportamento).
Conclusão: DNS Público ou ISP
Depois de explorar benchmarks, testes empíricos e cenários reais, a verdade é incômoda: não há um resolver DNS que vença em todos os aspectos para todos os usuários.
ISP local vence em latência pura, mas perde em privacidade. Cloudflare vence em privacidade e segurança global, mas perde em latência para maioria de usuários urbanos. Google vence em cache global e integração de serviços, mas não é significativamente mais rápido que concorrentes.
A escolha certa depende de sua situação específica: localização geográfica, qualidade do ISP, prioridades de segurança/privacidade, e disposição para otimizar manualmente.
Para a maioria dos usuários brasileiros urbanos com bom ISP: fique com o resolver padrão. Para usuários em áreas remotas ou com privacidade como prioridade: Cloudflare é uma aposta sólida. Para técnicos: implemente split-DNS adaptável.
E acima de tudo, não confunda velocidade de DNS com velocidade de internet. DNS é apenas a porta de entrada. Depois vem TCP, TLS, HTTP, processamento de servidor—mais 500-1000ms de latência agregada. Otimizar DNS sozinho não resolverá um site lento, mas ignorá-lo garantirá que ele fique mais lento ainda.
Sobre este artigo
Este artigo foi escrito com base em dados empíricos de DNSPerf, testes independentes (Catchpoint, Vaibhav Bajpai et al.), análises de roteamento de ISP brasileiro e experiência prática de otimização de infraestrutura. Não é um artigo de marketing de nenhum provedor DNS específico, mas uma análise crítica dos trade-offs reais.
Versão: 1.0 | Data: Fevereiro de 2025 | Atualizações: Benchmarks revisados mensalmente baseado em DNSPerf público.





